oito /// três
clara madalena p'las múltipas vigílas
à voz do 2º outorgante de bolso
remendado e traqueia rafada vendo
o denso visco dos que cercam o rosto
à lira possível por entre rodriguinhos
de antigos donos de imóveis & comodidades
[sem título]
o que abre pelo
equívoco e muito aberto
escancarado se desenrola
na circunstância gregária do fogo
sangue terra crime bom
dia boa noite enquanto se treinam
artes de pneumónica avançada em estádios
ocupados no estilhaçar de nomes a ritmo
normal se formos aos registos do
guarda-livros apanhado da mona
estacas transplantadas p’la paciência
nocturna aceira maneira de fazer chiar
rodas de calendário de ratos que na busca
da fractura no elmo laboratorial
se deparam com a (palavra ilegível)
labirintologia i.e. um dia
houve tempo para esta ou
aquela regra no comprido
corpo da fita ininterrupta
e vencido o desafio da última
página do suplemento
encontramos esse ponto seguro sempre
referenciado nos simulacros empresariais
para sismos que não vêm e na lacuna
tudo na mesma mais
verde menos verde
e se alguém tropeça na regeneração
como resultado prático da
«observação da dor alheia»
nos aspectos a considerar erros de transmissão
cifras escondidas na estática do filme
e se encosta à bem-intencionada reconstituição
das últimas horas da última vida
do báculo à betoneira ao fio oscilante
lacrado na refulgência de oliveira
se tomba
enfim na toca pronta a emudecer o canto dos
olhos logo bate à porta a mão que na espádua
alheia relembra: meio dedal
de corcódea = meia centena de berlindes
perscrutantes que atravessam contabilizam
suor dúvidas flutuações a cores e se o texto
anuncia batedor com missiva esperançosa
– o primeiro passo para tudo rumar ao abandalho –
convocam-se os martelos pranchas pregos
e entaipa-se tudo para que no fluxo contínuo
da época do nojo do sublime engulho
nada se perca e já de acabamentos feitos
à clareira o que é da clareira
aos enfermos o que é dos enfermos
uns dão meia volta e voltam para os seus
buracos outros invadem as ruas de sorriso armado
alguém atraca a barca onde pode para na margem
se medir e ver se medrou ou mirrou
entre dores nas cartilagens roupa
apertada escadarias e restos de
pena de anjo
agarrada ao rubro incisivo
& desligo o interruptor
para no vertical corte perolado
ler a vermelho Intervalo
salvífico sinal
dos ainda não consumidos pelas
chamas cínicos expectantes
seja breu coalhado no
pote seja a inesgotável ciência das
nuvens da consciência colectiva
actualizada das metrópoles
trata-se pois de sublinhar o tratado pelo lado
turvo consanguíneo trejeito da repartição da noite
pelo arado privado das cabeças anónimas
mesmo que por entre benfazejos intentos no
umbigo do lameiro não se dobre uma esquina
ou rego mas um cabo de alimentação
bom dia boa noite as vezes necessárias
pra tamanha travessia de cabo retesado na singular
idade que dá os necessários passos acima das
mil cabeças aparvalhadas originando um rol
de apostas do milagre consumado ao nariz
nada a temer se a ironia nos socorrer e nos
lembrarmos que também nós
pequenas impressões espetadas na prancha
temos préstimo na excelsa ciência
de montagem que no intervalo particular
das nossas vidas nestes dias alguém legendará:
«migration of the ancient gods, again»
tocar no bordo das palavras empíricas
chegar à mornidão do ponto
1.1 sobejamente reconhecido por
não ter em si nem intento nem resposta
só embalo espreguiçando-se
aos sete ventos aceleracionistas
– comunidade textual / horda do ódio / chungarias várias
trata-se então da honorável tarefa de partilhar
segredos p’los ouvidos encostados ao colo do dólmen
& sobreviver a quase tudo
o dia, a noite, o inferno, o inverno
aguardar o sinal definitivo
para desavergonhado cavalgar
Cosmopolis
Não é geracional, é um espectro que espreguiçando-se toca nos velhos mamutes prontos para abate e os que surgem agora com auríferos farrapos num volume colectivo. Todos, sem excepção, alimentam o velho bordel do capital simbólico.
Devoram-se a si, e aos outros, como se o expressivo que passa pela literatura pudesse ser hoje da máxima importância. E convidam-nos prometendo-nos tudo: divino desafio, fulgurante bandeira em inusitada planície lunar, a bela fotografia de grupo para um dia mais tarde, numa legenda descodificada numa base de dados nunca consultada se ler: os que juntos dinamitaram a sua época.
Com vários defeitos, mas um par de olhos ainda satisfatório, encolhemos os ombros, vamos aos casamentos e aos funerais. Todos são medalhados, todos são enterrados.
Mas há, contudo, algo que interessa. Este riacho que corre, indiferente a toda esta gente lá lavar a sua roupa (suja ou não), que para ela sussurraram bizarras aspirações, que nela despejam todo o conteúdo do seu precioso arquivo, agora dejectos aquíferos. É que por essa água, se para isso tivermos a paciência devida, encontra-se (em percentagens infinitesimais) um elemento comum a todos os discursos, todos as agentes, todas as variantes. Falamos da palpável falta de coragem de enfrentar de frente o vazio ontológico a que estamos presos desde que nascemos.
Simulacros de informação especulativa indo sempre para diante num fluxo despropositado, insignificante, paupérrimo. E nós sem uma limusina que nos safe.
JGP
Dylda
Seguindo pelo túnel os pirilampos epocais vão-se apagando, a minúcia do cenário, e das vestes, fica, de facto, esquecida. Não estamos afinal nesse limbo desenhado pelo italiano onde às crianças prematuramente mortas se juntavam as personagens de Walser. Não poderíamos aí chegar... e se o achámos é por termos sido confundidos com diálogos quebrados e palavras não ditas, neve e bafo de gente que apenas segue para diante sem saber como ou porquê. Passámos, isso sim, pelo ângulo cego, atalhámos, sem saber que atalhávamos, rumo a essa gente que está morta por dentro mas espera a redenção para que vida floresça uma última vez. Uma vida por vir, uma oferenda que para ser entregue sacrifique mensageiros, geografias, o estabelecido. Chegámos aos espectros que anseiam o milagre de voltarem à carne e osso.
(e pensar que umas horas antes, à mesa de um café indistinto na Alameda, se menosprezava, injustamente, a cor verde. Se ainda alguma dúvida permanecesse - a única alternativa é, foi, a reconciliação)
~
o outro lado dos que estão neste, juntos a nós
algumas lições
Há outros que apesar de terem essa força só lhes vamos recebendo os ensinamentos à velocidade da nossa preparação. E assim, enquanto avançamos pelos anéis do que podemos compreender à data, vamos apanhando a oferenda em jeito de vagas marítimas. Bernhard foi, para mim, um nome desta natureza.
Em primeiro lugar mostrou-me o mais evidente: que se pode escrever e pensar desse modo, em jeito de bulldozer obcecado com minudências. Em segundo lugar ensinou-me a verbalizar (sempre para dentro, claro) o que me incomodava e prendia desde sempre: laços de família; terra que nos vê crescer; sítio e pessoas que nos aniquilam, mas que são o que de mais puro vimos e a nossa última esperança de sermos compreendidos. Em terceiro lugar levou-me pela mão a essa terra de ninguém de onde se vê o mundo numa tensa dualidade: tudo é de capital importância! (seja horrível ou o seu contrário), mas tudo desemboca nessa foz serena em que não há nada que não seja indiferente, irrelevante. Penso que este último ponto estava ligado à certeza da morte e a uma iluminação interior que Bernhard foi ganhando com os anos por se ter tornado independente de tudo desde o sanatório da juventude ao in extremis da existência.
No século onde o trampolim da imortalidade começa ganhar contornos não é o ensinamento de Bernhard que se tem de reformular, mas o modo de lá chegar. Que será, irremediavelmente, um caminho ainda mais sinuoso e agreste.
ínvia introdução
a vastidão do céu
ao serviço da excentricidade dos gestores
do susto dos que acordam na
deus
que sonha na Califórnia a cortina de linho
branco filmada por alguém que adivinha
entretecidos tanto espaço
3 anos
um fantasma familiar que põe
todos - quem? -
quem são os peões de terracota
que ficam assim petrificados
para além do alto da parede
a quem esta ausência encosta
neste dia relatado
pela viagem da luz que entra
obliquamente na vida passada e precisa
de explicação
o porquê destes dois primos
sentados no baloiço a tecer
as veias e a voz
cigarro a cigarro infernal e
súbito até que te levantes inteiro
na escuridão
feroz verticalidade que surge
como se desse à costa das nossas vidas
uma última vez para apontar
o ponto cardeal do canto dos mortos
dos nossos porque o anonimato cobre
milhões países inteiros
desemparelhadas biografias
mas voltemos ao esforço
da tua última aparição e não achamos
o porquê de estares sentado na clareira
a orientar-nos em golfadas
animais mas é ouro mel âmbar que sai
pela latência do corte no peito
e a razão virá depois quando
os insectos comparecerem
e nós sucumbirmos de joelhos
na inesperada doçura da caruma
e com as mãos taparmos
o rosto
(farewell Z.)
mr. gilbert e eu
Depois, o aprender a rir-nos de nós próprios: é quando despimos a repulsa para vermos um pouco melhor. A seguir, e mais afoitos, almejamos ver a luz das pequenas coisas: um ombro, uma planta sustida na sua secura na jarra comprada por outrem, uma piada ao telefone do amigo que endoidece bem longe daqui. Enquanto isso trabalhamos administrativamente com rumo a uma suportabilidade do dia, nunca garantida, sempre perene. E agora que nos vêm bater à porta deste castelo arrendado e tão desfeito onde alojamos o nosso bom senso, pacientemente ouvimos os que trazem conselhos, algumas observações com vista ao corte, algum escárnio, naturalmente, e lembramos-nos: esquecemos de soltar os crocodilos no rio!
Isto para dizer, talvez, que estamos desde já conscientes do que a maioria ignora: o texto prometido não virá fazer tremer o mundo. É com o que nos é permitido conceber que teremos que nos amanhar. E, no entanto, amarrados por todos os lados, lemos uma pista que parece ascender da campa directamente para o caroço da nossa preocupação. Está em inglês e medita sobre o tempo que demora a ordenar as ruínas e acenamos ao morto por adivinharmos que também ele passou por aqui: esta estagnação feita de verbos que anseiam por um motivo vibrante.
começa aqui
Arca e Usura
Marcos Foz
Fevereiro de 2019
200 exemplares
distribuído pelas livrarias independentes ou por aqui
(estilhaços de um texto sem solução)
ao préstimo dos movimentos de meus dedos
vivos ou mortos dependendo da natureza
da escarpada especulação da destreza
de meu respeito p’lo vosso homem eu larápio
fugindo da posição de boémio ou escriturário
eu que codilho a sorte sob o fado dos tijolos ledos
da arcada sondada p’los vossos olhares dúbios
vos peço que minha inconformidade não sondeis
neste pedaço de papel pedacinhos de foral
mil caprichos dados aos loucos e aos reis








