Mostrar mensagens com a etiqueta caderno de encargos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta caderno de encargos. Mostrar todas as mensagens

III / Enublado Dizes

 


ENUBLADO DIZES
Marcos Foz

Bestiário, Agosto de 2024

pode ser adquirido aqui ou aqui

oito /// três

«tenho meu coração negro como a noite»
clara madalena p'las múltipas vigílas
à voz do 2º outorgante de bolso
remendado e traqueia rafada vendo
o denso visco dos que cercam o rosto
à lira possível por entre rodriguinhos
de antigos donos de imóveis & comodidades

*

ou, fora do literário: temos, teremos, 
enxuta - inadvertida - lucerna

II

 


VACA PRETA
Marcos Foz

edição: Bestiário / Livraria Snob
Abril de 2021

pode ser adquirido aqui ou ali

[sem título]



«Nature in the old sense does not matter. It does not exist.»



o que abre pelo
equívoco e muito aberto
escancarado se desenrola
na circunstância gregária do fogo
sangue terra crime bom
dia boa noite enquanto se treinam
artes de pneumónica avançada em estádios
ocupados no estilhaçar de nomes a ritmo
normal se formos aos registos do
guarda-livros apanhado da mona
estacas transplantadas p’la paciência
nocturna aceira maneira de fazer chiar
rodas de calendário de ratos que na busca
da fractura no elmo laboratorial
se deparam com a (palavra ilegível)
labirintologia i.e. um dia
houve tempo para esta ou
aquela regra no comprido
corpo da fita ininterrupta
e vencido o desafio da última
página do suplemento
encontramos esse ponto seguro sempre
referenciado nos simulacros empresariais
para sismos que não vêm e na lacuna
tudo na mesma mais
verde menos verde
e se alguém tropeça na regeneração
como resultado prático da
«observação da dor alheia»
nos aspectos a considerar erros de transmissão
cifras escondidas na estática do filme
e se encosta à bem-intencionada reconstituição
das últimas horas da última vida
do báculo à betoneira ao fio oscilante
lacrado na refulgência de oliveira
se tomba
enfim na toca pronta a emudecer o canto dos
olhos logo bate à porta a mão que na espádua
alheia relembra: meio dedal
de corcódea = meia centena de berlindes
perscrutantes que atravessam contabilizam
suor dúvidas flutuações a cores e se o texto
anuncia batedor com missiva esperançosa
– o primeiro passo para tudo rumar ao abandalho –
convocam-se os martelos pranchas pregos
e entaipa-se tudo para que no fluxo contínuo
da época do nojo do sublime engulho
nada se perca e já de acabamentos feitos
à clareira o que é da clareira
aos enfermos o que é dos enfermos

uns dão meia volta e voltam para os seus
buracos outros invadem as ruas de sorriso armado
alguém atraca a barca onde pode para na margem
se medir e ver se medrou ou mirrou
entre dores nas cartilagens roupa
apertada escadarias e restos de
pena de anjo
agarrada ao rubro incisivo 

& desligo o interruptor
para no vertical corte perolado
ler a vermelho Intervalo
salvífico sinal
dos ainda não consumidos pelas
chamas cínicos expectantes
seja breu coalhado no
pote seja a inesgotável ciência das
nuvens da consciência colectiva
actualizada das metrópoles

§ 

trata-se pois de sublinhar o tratado pelo lado
turvo consanguíneo trejeito da repartição da noite
pelo arado privado das cabeças anónimas
mesmo que por entre benfazejos intentos no
umbigo do lameiro não se dobre uma esquina
ou rego mas um cabo de alimentação

§ 

bom dia boa noite as vezes necessárias
pra tamanha travessia de cabo retesado na singular
idade que dá os necessários passos acima das
mil cabeças aparvalhadas originando um rol
de apostas do milagre consumado ao nariz 
pingado de sangue ininterrupto

§ 

nada a temer se a ironia nos socorrer e nos
lembrarmos que também nós
pequenas impressões espetadas na prancha
temos préstimo na excelsa ciência
de montagem que no intervalo particular
das nossas vidas nestes dias alguém legendará:
«migration of the ancient gods, again»

§ 

tocar no bordo das palavras empíricas
chegar à mornidão do ponto
1.1 sobejamente reconhecido por
não ter em si nem intento nem resposta
só embalo espreguiçando-se
aos sete ventos aceleracionistas
– comunidade textual / horda do ódio / chungarias várias

§ 

trata-se então da honorável tarefa de partilhar
segredos p’los ouvidos encostados ao colo do dólmen
& sobreviver a quase tudo
o dia, a noite, o inferno, o inverno

§ 

aguardar o sinal definitivo
para desavergonhado cavalgar

Cosmopolis

 Não é geracional, é um espectro que espreguiçando-se toca nos velhos mamutes prontos para abate e os que surgem agora com auríferos farrapos num volume colectivo. Todos, sem excepção, alimentam o velho bordel do capital simbólico. 

Devoram-se a si, e aos outros, como se o expressivo que passa pela literatura pudesse ser hoje da máxima importância. E convidam-nos prometendo-nos tudo: divino desafio, fulgurante bandeira em inusitada planície lunar, a bela fotografia de grupo para um dia mais tarde, numa legenda descodificada numa base de dados nunca consultada se ler: os que juntos dinamitaram a sua época. 

Com vários defeitos, mas um par de olhos ainda satisfatório, encolhemos os ombros, vamos aos casamentos e aos funerais. Todos são medalhados, todos são enterrados.

Mas há, contudo, algo que interessa. Este riacho que corre, indiferente a toda esta gente lá lavar a sua roupa (suja ou não), que para ela sussurraram bizarras aspirações, que nela despejam todo o conteúdo do seu precioso arquivo, agora dejectos aquíferos. É que por essa água, se para isso tivermos a paciência devida, encontra-se (em percentagens infinitesimais) um elemento comum a todos os discursos, todos as agentes, todas as variantes. Falamos da palpável falta de coragem de enfrentar de frente o vazio ontológico a que estamos presos desde que nascemos.

Simulacros de informação especulativa indo sempre para diante num fluxo despropositado, insignificante, paupérrimo. E nós sem uma limusina que nos safe.

JGP


Uma vela entre as mãos - plano roçado pelo uso. Alguém que vive vai ficando sem o seu amável esquadrão de reconhecimento.  Veste a camisa do espectro e quando abotoa o último botão, quando chega então à soleira da última casa, aguarda pacientemente pelo sonho adentro.


E pedem a continuação da grande fábula, mas só temos a intermitência da chama. Escolhemos prolongar o violento pelo tempo que nos for possível. Contamos a partir do oitenta e um, oitenta e dois. Nunca se volta ao 
zero


Dylda

No início, vagueamos por esses corredores um pouco tontos pela magnificência da luz e do tratamento das cores. Pouco depois o laço afrouxa para respirarmos, e encontramos-nos no centro do macabro. Invalidez e falta de palavras por todo o lado. Uma animalidade com vestes de camaradagem.

Seguindo pelo túnel os pirilampos epocais vão-se apagando, a minúcia do cenário, e das vestes, fica, de facto, esquecida. Não estamos afinal nesse limbo desenhado pelo italiano onde às crianças prematuramente mortas se juntavam as personagens de Walser. Não poderíamos aí chegar... e se o achámos é por termos sido confundidos com diálogos quebrados e palavras não ditas, neve e bafo de gente que apenas segue para diante sem saber como ou porquê. Passámos, isso sim, pelo ângulo cego, atalhámos, sem saber que atalhávamos, rumo a essa gente que está morta por dentro mas espera a redenção para que vida floresça uma última vez. Uma vida por vir, uma oferenda que para ser entregue sacrifique mensageiros, geografias, o estabelecido. Chegámos aos espectros que anseiam o milagre de voltarem à carne e osso.

(e pensar que umas horas antes, à mesa de um café indistinto na Alameda, se menosprezava, injustamente, a cor verde. Se ainda alguma dúvida permanecesse - a única alternativa é, foi, a reconciliação)

~

Tropeça-se nas variadas certezas de curto prazo para assim falhar o engano ambicionado. É um pouco como voltar à tal frase do Pavese onde explica que se deixa de ser jovem quando contar uma dor já não importa, mais coisa menos coisa. Tropeçar na sala de espelhos. Perder um amigo, por exemplo, enquanto olhávamos pela janela à procura de espírito//inteligência e... só rastos de sangue. Ideias feridas ou maluquinhos à rédea solta?

o outro lado dos que estão neste, juntos a nós

Ou eu ou a L., enquanto tentávamos tirar partido do primeiro rolo analógico que nos calhou no caminho, queimámos algumas, poucas fotografias. Depois de ver o resultado desses tiros fora do alvo comecei a rememorar o evidente: o quão misterioso pode ser o outro lado das coisas para que não possa ser captado, enjaulado por um instante?


E vieram-me à memória alguns planos de cartografia de sítios inexistentes, dos quais presenciei as  mais fantásticas, fantasiosas, reuniões preparatórias. Sou sempre dos afortunados que assistem ao planejar de projectos que de tão belos nunca poderão ser plenamente concretizados. Um pouco na esteira da obsessão de Strindberg em registar a alma da dança estelar;

que, no seu caso, metamorfoseou-se ao longos dos seus últimos anos numa passada lógica, ditada pelo avanço das novas ferramentas de representar o real ainda não totalmente desencantado. Já antes se adivinhavam algumas destas ânsias no pincel...


... talvez, tudo dependa das mãos. Que movimento lhes propor quando as nossas investigações esbarram em becos sem saída e o sapateado dos perseguidores já se faz ouvir. Dançar ou escavar, velar o céu ou seu contrário.

;

Pode não parecer, mas isto vai de encontro às conversas que vou tendo na livraria, nas esplanadas ou onde se dispõem a ouvir-me, sobre tecnologia, sobre verdade/mentira e sobre este não ser um tempo para mais histórias. Do néscio ao príncipe repetir: mais histórias não!

algumas lições

Há gente que nos ensina tudo de uma vez em jeito de camião que desprende milagrosamente  as seguranças férreas da carga que transporta, e assim despeja tudo o que tem em plena auto-estrada amassando capots, quebrando espelhos, criando despistes e balbúrdia generalizada.

Há outros que apesar de terem essa força só lhes vamos recebendo os ensinamentos à velocidade da nossa preparação. E assim, enquanto avançamos pelos anéis do que podemos compreender à data, vamos apanhando a oferenda em jeito de vagas marítimas. Bernhard foi, para mim, um nome desta natureza.

Em primeiro lugar mostrou-me o mais evidente: que se pode escrever e pensar desse modo, em jeito de bulldozer obcecado com minudências. Em segundo lugar ensinou-me a verbalizar (sempre para dentro, claro) o que me incomodava e prendia desde sempre: laços de família; terra que nos vê crescer; sítio e pessoas que nos aniquilam, mas que são o que de mais puro vimos e a nossa última esperança de sermos compreendidos. Em terceiro lugar levou-me pela mão a essa terra de ninguém  de onde se vê o mundo numa tensa dualidade: tudo é de capital importância! (seja horrível ou o seu contrário), mas tudo desemboca nessa foz serena em que não há nada que não seja indiferente, irrelevante. Penso que este último ponto estava ligado à certeza da morte e a uma iluminação interior que Bernhard foi ganhando com os anos por se ter tornado independente de tudo desde o sanatório da juventude ao in extremis da existência.

No século onde o trampolim da imortalidade começa ganhar contornos não é o ensinamento de Bernhard que se tem de reformular, mas o modo de lá chegar. Que será, irremediavelmente, um caminho ainda mais sinuoso e agreste.


ínvia introdução

lances de dados sob
a vastidão do céu
ao serviço da excentricidade dos gestores
do susto dos que acordam na
margem do real depois de tocada
a sonata - o miúdo no décimo sexto
andar da sua noite entre o soalho e a agulha o
velho europeu na promessa das
papoilas os monges do Monte
Hiei entre a morte e o sonho
corrido a candura do pequeno
deus
que sonha na Califórnia a cortina de linho
branco filmada por alguém que adivinha
a expulsão tantos assuntos
entretecidos tanto espaço
ocupado pelo insólito a aparição da que ficou
hospedada aqui no bairro
duas ruas paralelas
à do jovem escriba que nos legou um
fino conjunto de papelada
oh! nomear ou não nomear?
o jovem a madame a verdade num dos pólos
da esfera que cartografamos melancolicamente
Lunarito Zana Annemarie
Marcos Victor Emmanuel 
tanto nó por destrinçar na ponta de cada
imagem que quando entramos em explicações
à beira da nossa juventude kavafisiana logo
sacamos do revólver em jeito de piada
cultural isto é lúgubre

3 anos

num salmo por abrir
um fantasma familiar que põe
todos - quem? -
quem são os peões de terracota
que ficam assim petrificados
para além do alto da parede
a quem esta ausência encosta
neste dia relatado
pela viagem da luz que entra
obliquamente na vida passada e precisa
de explicação
o porquê destes dois primos
sentados no baloiço a tecer
as veias e a voz
cigarro a cigarro infernal e
súbito até que te levantes inteiro
na escuridão
feroz verticalidade que surge
como se desse à costa das nossas vidas
uma última vez para apontar
o ponto cardeal do canto dos mortos
dos nossos porque o anonimato cobre
milhões países inteiros
desemparelhadas biografias
mas voltemos ao esforço
da tua última aparição e não achamos
o porquê de estares sentado na clareira
a orientar-nos em golfadas
animais mas é ouro mel âmbar que sai
pela latência do corte no peito
e a razão virá depois quando
os insectos comparecerem
e nós sucumbirmos de joelhos
na inesperada doçura da caruma
e com as mãos taparmos
o rosto


(farewell Z.)

mr. gilbert e eu

Não estou a dizer que seja custoso, mas é um funambulismo periclitante isto de sermos jovens velhos por dentro e andarmos constantemente a contornar os próprios fantasmas. Vejamos: durante muito tempo soube, e escrevi, que o meu mister seria o de fazer bater certo a minha raiva e quando o sublinhava pensava nas vinhas ao sol, rostos milenares cruelmente tracejados, mãos com pele vegetal que à mínima arranhadela cedem essa ternura rubra que vai pingando entre a árida terra, as queimadas, os pés das oliveiras por desbastar.

Depois, o aprender a rir-nos de nós próprios: é quando despimos a repulsa para vermos um pouco melhor. A seguir, e mais afoitos, almejamos ver a luz das pequenas coisas: um ombro, uma planta sustida na sua secura na jarra comprada por outrem, uma piada ao telefone do amigo que endoidece bem longe daqui. Enquanto isso trabalhamos administrativamente com rumo a uma suportabilidade do dia, nunca garantida, sempre perene. E agora que nos vêm bater à porta deste castelo arrendado e tão desfeito onde alojamos o nosso bom senso, pacientemente ouvimos os que trazem conselhos, algumas observações com vista ao corte, algum escárnio, naturalmente, e lembramos-nos: esquecemos de soltar os crocodilos no rio!

Isto para dizer, talvez, que estamos desde já conscientes do que a maioria ignora: o texto prometido não virá fazer tremer o mundo. É com o que nos é permitido conceber que teremos que nos amanhar. E, no entanto, amarrados por todos os lados, lemos uma pista que parece ascender da campa directamente para o caroço da nossa preocupação. Está em inglês e medita sobre o tempo que demora a ordenar as ruínas e acenamos ao morto por adivinharmos que também ele passou por aqui: esta estagnação feita de verbos que anseiam por um motivo vibrante.

Sobre 'Arca e Usura'

Ípsilon 31/05/2019


Expresso, ?/8/2019


Há bestas que batem à porta
;
e há sempre algum enunciado
a arder no cinzeiro


(metodologia)


começa aqui


Arca e Usura
Marcos Foz

Fevereiro de 2019
200 exemplares

distribuído pelas livrarias independentes ou por aqui

(estilhaços de um texto sem solução)


«but I am able to seduce the material sometimes»


Alguém regressa do Sul e tenta extrair da sua estada um pequeno ensaio pertinente. Falha, desespera moderadamente. Depois de algumas tentativas diferenciadas quanto à forma da sua aproximação ao tema decide anotar, de memória, algumas experiências onde tenha sentido em si uma recalibração:

1. Um louco interpela outro à porta da Biblioteca Municipal. Pergunta-lhe se já tinha visto o vídeo que agora lhe mostra no telemóvel. O outro, entre grunhidos, passivamente, vê-o pela primeira vez. O primeiro, que anteriormente já presenciámos a falar sozinho num animado simpósio, começa a revelar que o vídeo é a prova que Isto está tudo muito bem feito, e puxa deus à conversa e anima-se incessantemente com o assunto. A certa altura enuncia o assunto do vídeo: a comunicação entre dois gémeos na barriga da mãe, prova da existência divina. Depois debanda impaciente por falta de reacção à altura.
Enquanto fumamos um último cigarro, eu e o segundo homem, e depois do outro ter já subido ao piso superior do edifício e ter retornado, vimos (vejo?) que este passa agora por nós com uma caixa de dvd’s na mão. Reconhecemos o rosto e os óculos escuros da contracapa do da ponta. Era Takeshi Kitano que acompanhava agora os passos do crente até casa.


________ regressar. Se pudéssemos dizer que esta é uma cidade feita à medida do nosso amor e do nosso corpo sem que um sorriso cínico forçasse as linhas da boca.
Passou-se algum tempo e não há ainda uma ideia particularmente brilhante para decifrar a empreitada;
dois passos atrás
para confirmar o óbvio: quando alguém diz povo


2. No bar, enquanto nos embebedamos sozinhos e lemos o primeiro Walser que comprámos.
A meio do Passeio, atordoados, lembramo-nos de um rosto que se apresentou e nos foi inesperado ao longo da semana. Voltamos à infância e pedimos em surdina que caso deus queira ter a gentileza de se mostrar que faça com que essa cara entre e se sente ali ao lado. Pois bem, entra e senta-se no limite oposto do bar com outras caras que nos são detestáveis e que, cremos nós à quinta garrafa, conspiram para o tal aniquilamento de quem somos pacientes alunos cautelosos.
As deambulações suíças parecem-nos agora um pouco puritanas.


- avós?
Falar amorosamente é cair no particular.


3. Uma tarde inteira na biblioteca. A cabeça começa a saltar a cerca das ideias envolventes ao trabalho: o povo de Baleizão. Entediados pelo insucesso saímos da sala de estudo para uma pausa. No caminho, entre mesas, avistamos um senhor, cinquenta e muitos, de bigodes levantados, barriga proeminente, caricatura do português que vai pedir um tinto no estabelecimento mais próximo. Lê com atenção. Voracidade. Reparamos na capa, reconhecemos o Saturno tenebroso. Leu incessantemente, quer-nos parecer, Ou o Poema Contínuo.
Avaliar o efeito que o livro teve no seu caminhar ou no dar as boas-vindas em casa, seria um mister pertinente.


Avó, 78 anos, analfabeta. Avô, 80 anos, quarta classe. Ambos aldeões de um local de 754 habitantes em 2011. Simplificando: pessoas ainda por representar.
Anota a certa altura: ah, mas o neorrealismo e estas locomotivas de romancistas dos últimos vinte anos saudosistas pelo campo… tudo lindo entre a caricatura e a beleza do instante capturado, mas a carne, as veias, a pele finíssima a escurecer ao sol, os cortes sucessivos, os pinheiros a derrubarem, onde estão? E se mos apontarem direi que não são os meus pinheiros, não serão as minhas mãos. Porque eu sou os meus avós e eles sou eu, mesmo que essa transmutação seja feita pela sucessão muda de milhares de dias. Ah, mas quem és tu e o que pretendes da tua inocência, tu a quem te falta tanta ciência luminosa (…)
Poderá uma reflexão ser edificada no corpo da intuição?


4. No bar novamente, sozinhos e sóbrios. Um desconhecido pergunta se pode sentar-se connosco à mesa. Acenamos que sim. Mexe no casaco, louva o facto de fumarmos ambos tabaco de enrolar. Conta que está a gostar da cidade, tira alguns remédios do casaco que claramente não seria o dele até há pouco tempo. Assuntos clássicos. Tinha vindo para a cidade com o intuito de se acalmar, reduzir de velocidade. No processo de desaceleração tinha ido abastecer-se à farmácia com os comprimidos que toma por recriação há vinte anos e apanhara alguma roupa encontrada na rua. Vinha de Lisboa. Diz que a sua actividade preferida é caminhar sem rumo, contemplar a arquitectura das casas. Acredito. A certa altura começa a fazer caretas involuntárias e percebe-se que tem dores. Tira do casaco uma garrafa de plástico com um líquido lá dentro. Abocanha a garrafa, bochecha a receita. Álcool etílico, para desinfectar, açúcar, para tornar a mistura consumível e dar energia, cafeína, para o manter desperto, sumo de manga pelo sabor. Tinha partido um dente nesse dia a fazer um brinquedo em arame para uma criança. Coça-se, vemos algumas marcas na pele. Depois de um bom bocado relaxa e quase adormece.


_________ o barulho da armadilha ao ser montada.
Decidimos ir a uma sessão onde dois filmes e uma conversa orbitavam sobre o tema da «alegria» e foi ali que vimos pela primeira Vidros Partidos de Victor Erice e foi ali que estremeci vendo cada rosto daquela fotografia tirada há várias décadas naquele refeitório.
Também eu me sinto capaz, por vezes, de seduzir os materiais. Acredito a meio da sessão que a nossa vinda até ali fazia parte de um jogo mais amplo, uma dança entre o meu entrave intelectual e o arranhar da porta pela besta que procura a luz passada, panorâmica. Também eu, com as ferramentas dos homens, abro caminho pelo cascalho ao nível das solas e pela orientação dos veios da madeira.


5. Ouvir a Mariana Bicho, pela primeira vez, a cantar modas e orações. Emocionar-me por rever naquele tracejado gravado na pele alguns gracejos e miséria familiar. E pela primeira vez sei qual o nome que te faz jus, bela infanta.


desde que começámos a viver juntos sinto a necessidade de sentir os compartimentos vazios. Não é a tua presença que me ameaça, mas a falta de vazio. No sul tive um palacete a meu dispor e nas noites mais longas quando já caminhava desvairado rememorando episódios inverosímeis sorri sempre quando cheguei ao limite da razão. Assustado pela parcela mais livre do meu ser, recuava, satisfeito por ter notado, uma vez mais, o limite. Para voltar a ver a linha é preciso vazio.


6. Aniversário. Mais um marado que se senta voluntariamente ao meu lado. Ex-militar completamente doido numa representação caricatural do que será o traumatizado de guerra por excelência. Emociona-me o seu desvario. Emociona-se ele relembrando a juventude que ia passando no bar entre músicas com trinta anos. Não entrarei em detalhes. São demasiado puros e teatrais.


e quando regressámos os nossos passos vibraram uma finíssima corda que tinha ensarilhada na estaca privada da razão e senti que a alegria tinha-nos invadido e que mil compartimentos deviam ser ocupados mil vezes, em simultâneo, por ti.


7. Ficas a saber, pelos utensílios contemporâneos de máxima ciência, que morreu a Helena Almeida. Está a escurecer e a trovoada começa a sua cerimónia no limite do horizonte. Sentas-te nesse tépido muro à espera da marcha da música e da luz.


mascarei-me múltiplas vezes de máquina de produzir variações movido pela fúria. E se me comovo e as lágrimas me caem involuntariamente é pelo temor de perder o meu motivo. Porque não posso esquecer as nucas da fotografia, os desfigurados pela rejeição. Não posso perder na neblina os excluídos pela cristalização do instante.
:
- avô, avó, quem me garante que este marulhar nas linhas das mãos não subirá o berço e me afogará mais adiante quando já não mereça o trabalho colossal da vossa devoção?


8. Ouvir, com alguma regularidade, a palavra mestre. No início ouvi-la de um modo trocista. Depois em concordância e com estima. Um mestre com que travei de perto: Isaclino. Um artesão que dedicou toda a sua vida ao trabalho em barro retratando cantadores alentejanos, estórias bíblicas ou lendas da cidade. Os traços naïve iam bem com a sua postura gentil. Prestara-se ao trabalho do mesmo material durante décadas, até ao fim, e isso bastava-lhe.
A mão do oleiro assume as mais diversas formas e a cada um resta apenas encontrar a oficina que mais lhe convenha.


, e porquê tentar fazer justiça a um assunto com fragmentos circunstanciais quando temos toda uma biografia em latência por ver o vislumbre perene da justiça?


9. Numa esplanada, com vinte e dois graus no final do Outono, depois de um café e uma queijada, de perna cruzada, cerra os olhos enquanto o sol insistente, mas aprazível lhe aquece a pele, o casaco de ganga, a barba. Faz tempo. Contente com a possibilidade de ali estar e ninguém o incomodar abre uma fresta de pálpebra e apanha-se reflectido no vidro expositor de uma esteticista. Vesse, foca-se. É belo. Apesar dos maus hábitos, do branco precoce, das rugas prematuras, do sorriso desalinhado por estórias familiares, é um pequeno animal reluzente em conformidade com o que o rodeia. Sorri e aprecia o efeito do sorriso no reflexo do vidro. Pensa que terá saudades desta cidade: o barulho ensurdecedor dos pássaros a qualquer hora do dia, dos malucos que foi conhecendo, das velhas com as suas orações perenes, das raparigas de dezassete anos que rasgam a harmonia do olhar. Pensa nos queixumes que tem feito acerca da solidão e confirma que é tudo verdade. Não é raro, no entanto, que no mesmo dia em que tem um desses ataques de solidão seja o dia em que novamente sozinho, à noite ou ao final da tarde, se contente com um pôr-do-sol de cinco cores.
Não poderia continuar ali, pois naturalmente daria em doido a falar sozinho com as paredes, apanhando beatas da rua enquanto insultava um parente invisível. Mas afinal seria esta uma cidade amiga, pardieiro improvável, musa, rameira serena. Uma cidade que não é mais que a aceitação do que der e vier.


O melhor mesmo será contar o mínimo. Quanto menos enunciamos menos traímos o material não evocado. Porque tudo, quando de temas centrais falamos, é digno de referenciação.
Queria explicar como foi possível teres encontrado um rato morto na panela ao lume e de como depois de o tirares levaste a comida até ao resto da família que esperava no pinhal. Em como em tantas décadas nunca entraste num café sem a presença do teu marido. Ou de como ele ganhou a posição de tintureiro na fábrica com o seu caderno de fórmulas alquímicas que outros espiavam quando se distraía. E descrever o trilho percorrido de noite pelo mato até ao local que vigiavas na Alemanha e como todos os detalhes são fios indiscerníveis entre pequenas verdades e grandes ilusões. E até da tua traição falaria se soubesse colocar devidamente a língua ao serviço da tua justeza.


10. E o moinho do senhor Soares, a sua pequena janela e as buganvílias e todos os que se apresentaram a horas certas para tornar os meus dias mais luminosos. E o café do senhor Costa abandonado à sua sorte de casa de jogos anacrónica. E o Pica com a arte do buinho, e os seres extravagantes no nevoeiro junto ao castelo. E as viagens de carro com A. e as pedras minúsculas arremessadas na pedreira com as gigantes a nos susterem com paciência de quem todo o tempo do mundo enquanto as coisas girarem sobre si mesmas.


e a mão suspensa e pousada na tua durante tantas noites que ainda não pertenciam ao carrascos. A tua mão engrossada pela orquestração das hastes e dos cortes.
Um dia terei que perambular sobre essa união para compreender a incondicionalidade.

(desvio não-formal)


ó mulheres alheias que me entregam vossos lábios
ao préstimo dos movimentos de meus dedos
vivos ou mortos dependendo da natureza
da escarpada especulação da destreza
de meu respeito p’lo vosso homem eu larápio
fugindo da posição de boémio ou escriturário
eu que codilho a sorte sob o fado dos tijolos ledos
da arcada sondada p’los vossos olhares dúbios
vos peço que minha inconformidade não sondeis
neste pedaço de papel pedacinhos de foral
mil caprichos dados aos loucos e aos reis

comem-se versos?


breves sobre a demagogia da «poetização do mundo»

(...) a dominação do homem pela criação do homem é ainda mais ridícula que a dominação do homem pelo homem.
George Woodcock

1. Numa aula de Ciência Política, há alguns anos, vi um amigo a ser arrasado pelo professor quando falando das vítimas de um conflito armado, que permaneceu vários anos num impasse, confessou que, na sua perspectiva, os habitantes da nação destruída estavam-se nas tintas para quem os apoiava, se os americanos ou os russos. Usou a expressão «não se comem ideologias», o que suscitou um monólogo do mestre-escola de dez minutos onde entre referências históricas, sociológicas e circo de variedades dizimou o outro à frente de todos.

Se a expressão é inequivocamente problemática, simplificadora e errante, é também a melhor expressão que traduz um certo sentimento da vítima, em vários contextos.

2. Lembrei-me deste episódio enquanto lia uma crónica da escritora Filipa Martins onde puxa vários poetas e escribas à baila para reflectir acerca do problema de velocidade do nosso tempo e onde o seu objectivo, parece-me, seria apontar a poesia ou a poetização do mundo como uma «máquina do tempo que recupera humanismo».

Isto vai ao encontro de uma imagem que circulou na internet nas vésperas, e nos dias seguintes, da eleição de Bolsonaro onde um boneco, e cito de memória, diz para o outro que lhe pergunta o que fazer agora: «poesia, esses canalhas não aguentam poesia».

Num país onde haverá meio milhar de leitores de versos alheios são da natureza da twilight zone estes reptos pueris. Estamos perante a deformação de tomadas de posição que as redes sociais cria onde na sala de espelhos confundimos a cartola com o coelho e usamos tudo para o mesmo fim.

O uso da poesia é tema que vários cicerones usaram para encher milhares de páginas eloquentes, mas a nós, filhos deste século, é evidente que não servirá para salvar as democracias liberais ou alguma posição ética elevada perante o que nos rodeia e se desmorona. 

3. (Que poesia? Que escritores?)

Outra questão a levantar é: que poesia é que eles não aguentam? Parece que aguentam toda, pois não frequentam nenhuma. É na área financeira que se encontram a maioria das respostas ao surgimento de personagens insólitas e déspotas, mas se quiséssemos aderir a este apelo poético e patético, a que poesia nos agarraríamos enquanto cidadãos deste país, em 2018?

A larga maioria da poesia de hoje é complacente e isso é uma das imposturas que já Roger Callois aponta em 1945 ao ofício do versejador. Hoje temos, numa larga maioria, poesia de melancólica rememoração pessoal e, do outro lado, os usuários da bimbi imagética onde, apoiados nas tradições do século passado, se usa o pastiche de imagens não tão insólitas assim, de modo a criar alguma reacção ao leitor menos avisado.

Esse é também um dos problemas: mesmo alinhando nessa resistência pela poetização do mundo, poucos versos escritos agora reflectem a nossa condição actual. Mesmo que sejamos tontos não identificamos nenhum bote de salvamento neste titanic em desmoronamento.

4. O caminho que se está aqui a traçar com recurso à perambulação no quarto estreito das nossas ideias não vai, de todo, ao encontro do apelo ao "social" na poesia. O século passado já aí esteve, já resolveu o que pode, deixou algumas sobras, e seguiu-se caminho. Nada se deve pedir mais ao poema que viva pelas suas pernas na sua condição absoluta entre a elevação ou a queda consoante o gosto dominante de cada geração. 

E é certo que há excepções, há versos que identificamos como produtos deste tempo sejam eles contemplativos, inconformados, perigosos ou indiferentes. Mas talvez só um feixe infinitesimal de gente caiba no recreio dos poetas que inclinam um pouco as molduras das ideias em tempos sombrios e um grupo restrito dessa alcateia o consiga fazer bem no tempo da sua vida. Serão os que exaltam amorosamente os assuntos de dentes cerrados. São os que apontam, descrevem o que vai mal, fazem-no com mestria e, entre o cheiro da olaria e o código de conduta do excluído imprevisível, deixam um rasto de perigo: olhamos para essa direcção porque tememos a incerteza e o que acontecerá se permanecermos de pálpebras cerradas.

5. E se cada vez é mais difícil encontrarmos gente dessa não é por falta de talento. Cada vez mais, na linha de produção de bordados literários, há mais competência e rapidez na gestação de livros bem escritos de fio a pavio. Não há, na esmagadora maioria, é força vital aliada a uma inteligência acutilante. Normalmente não há essa conjugação nem cada um dos pressupostos em separado. 

6. E esse sortido fino referido anteriormente justificará os apelos dos escritores assim-assim para causas alienadas? Não creio, porque: quem faz o apelo não se esforça por conhecer a fundo o problema que o aflige; quem faz o apelo apoia, mesmo que involuntariamente, uma estupidificação de quem acredita em si tornando mais difícil a identificação do problema; quem faz o apelo não tem critério que lhe permita identificar quem chamar à mesa para pôr os pontos nos i's.

7. E a mudança do nosso comportamento e da nossa visão da ordem geral das coisas não pode começar com um pequeno incentivo ao que de mais pessoal, biográfico, anti-social, temos? Pode, claro. Mas entrando por aí, neste ou em qualquer outro assunto, só resta consumir e esperar para ver. Como concordamos que a velocidade do nosso tempo é um aspecto grave a ser pensado com urgência, a espera pode ser bicuda.