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V

Sente-se a variação
na atmosfera do quarto; uma corrente
de ar? com a porta,
as janelas fechadas?
o sopro vem talvez da estante:
poemas, dicionários;
como se a biblioteca desprendesse
substâncias voláteis; ou
que tentam voar; o frémito,
o pressentimento, acorda
os móveis fascinados; pouco a pouco,
no aro do abat-jour,
onde a diferença é mais sensível,
condensa-se o rumor das primeiras
palavras: afinal, são elas;
e logo que os seus vôos;
anteriores à escrita; as precipitam
no papel, começa-se a escrever


Carlos de Oliveira, Entre Duas Memórias

LAMINAGEM



Um país agora este imenso aterro
teve alguma vez colinas e montados
onde o olhar demorava, adormecia
e seguia uma alegria viandante?
Ou gente que chegasse a qualquer mar
de que não quisesse logo fugir?
Só o pastoril decrépito o suspirava.


Teve o que todos tinham, em quantidade escassa,
até cobrir-se de desterro e de ilegais
e em pano de fundo esse lagar
de suicidas e débitos e primeiras segundas gerações.
A farpa de aceitação de quem consome
o sem destino da consciência.
Um país; tomou-se um assassino.


Viverei os poucos verões até morrer
com este mundo de agressão em cerco.
Eu queria outro país, outro lugar
e tenho este infortúnio de leis amarrotadas
que não cumprem nem o violento nem o clandestino.
Um país de acasos,
um parque de campismo selvagem, um cimento apodrecido,
a música de sem abrigos nas estações de metro
enquanto não chegam comboios avariados
às plataformas de arte depredada,
um esboroamento sanguinário.
Até a linguagem que me ergueu
me sabe a sarro e a arrabalde.


Não fossem as obrigações que nos garrotam
nos fazem monstros com a lassidão de herbívoros
talvez pudesse ter o interior abandonado
e chegasse a faca do sol e me cortasse
noutra penúria mais serena.


Ainda que me digam que não olhe,
eu vejo. Ainda que me digam faz ginástica
e a depressão desaparece, nada me resolve.
Os ruídos sobem de qualquer lugar,
sintetizadores, martelos, desabamentos
uma percussão alheia a qualquer justiça.
Nenhuma janela que não fale
da construção administrativa dos piores instintos.
Todo o lixo do humano feito sebo
em qualquer lugar. Ainda que me digam
que vivemos em democracia eu digo
que não sei. Nem direitos nem deveres.
Um sem remédio ancestral.


Morreu a casa. Matou-a
o que lhe coube por contemporâneo
contra a placidez. Os autorizados
pelo conluio e pela votação.
Morreu a casa. E o pior
é não poder partir. Os laços
já se juntaram em anestesia. Preso
por outro amor, que não entende,
que não ouve como a casa já morreu.


A alguns vemo-los em qualquer pousio
Depois de fecharem as lojas
e nem se sabe o que vemos.
Aos balcões de cafés de azulejo,
com telemóveis pendurados nos cintos
e os cartões de crédito em dente na carteira.
Riem-se e batem nas costas
uns dos outros, entreolham e vigiam
se alguém diverso se aproxima
para largarem uma troça arcaica, e comem
com essa fome dos que não sofreram ainda
inquietações laborais ou crêem que virá
depressa o primeiro emprego.


Ao olhá-Ios melhor, aos seus afectos
de pessoal especializado em escuras economias
adicionais, vejo-os depois no verão.
Ao deus dará em todos os lugares,
em tendas velhas, em rulotes,
sabe-se lá onde vão cagar. E as mulheres
com os sinais exteriores da aspereza.
E as asas do inverno marítimo
auguram o aluimento.


Eu queria que na cabeça parasse
o furor de tudo o que tomba,
a derrota do dia a dia,
mas será sempre o cabide do tempo
quem estende as garras para nos alhear.
E os e-mail atravessam zonas sem remendo,
choças de tijolo com roupas a secar.


Assim armado o país.
As gentes em catástrofe deslocam-se,
deixam por testemunho o abandono e a inépcia.
Uma a uma, uma paisagem é trucidada.
Inchou a autarquias o país.
Atravessam-no a miséria e algum dinheiro
insolentes.
Um assassino
espreita outro assassino.


Os que destroem agora
podem exigir os torcionários que virão,
pois quem destrói pressente um chefe
e vai servi-Io.
E muitos hão-de sempre ser as vítimas
da liberdade que consente a violência,
da violência que não consente a liberdade.
Um assassino o país. Com as suas leis
inúteis, a sua ordem por cumprir.


Só nos resta esperar então morrer?



Joaquim Manuel Magalhães
Já vos falei do carácter do meu filho? Tudo se passou quando ele pensou ser um tipo ou grafo - já não sei bem, quando decidiu montar um negócio de tipografia. Na cabeça dele funcionava, percebi-o depois, uma espécie da associação holográfica ou hiper-realista: tinha lido algures que a escolha dos caracteres era a parte mais importante em tipografia. Daí ter pensado de imediato que se tratava sempre de uma questão de escolha, de «livre-arbítrio»: que Ser era a forma de impressão de um livro - ou de uma fotografia. É difícil combater estas ideias falsas, mesmo nos adultos, já que elas se apoiam na materialidade e na banalidade da língua. Pensei, assim, levá-lo a uma tipografia - da mesma maneira, afinal, que se leva uma criança ao circo. Para que também ele se apercebesse de que, apesar da semelhança dos jogos (dos vôos Léotard, sem rede), os humanos não se confundem com as feras, tal como os caracteres não se misturam com os tipos. Ensinei-lhe tudo (o que pude): o Normand e o Garamond, o redondo e o itálico, o Futura. E contudo, súbita translucidez dele - ou pequena subtileza minha -, ele traduzia imediatamente o que lhe dizia em realidade outras, fossem elas conveniências ou ficções do espírito. Bem lhe tentei explicar o mecanismo. O que fiz eu? Desci a tudo. Citei-lhe Dante: disse-lhe que as tipografias não passavam de uma forma aproximada do Inferno; que nelas se entrava com poemas a mais e se saía sempre com penas a menos («poesias»). Que tudo aí era rabiscado, chumbado, até que pudesse um dia assumir a forma e a exterioridade visível (apreciável) de um tipo (escrito). Mas ele insistia. Procurando encontrar equivalências entre o espírito e o chumbo. A partir daí tive dificuldades em lhe explicar em que consistia um livro: para ele, aquilo que eu lhe apresentava era sempre muito volátil e frágil. No seu entender, a poesia devida resultar do próprio peso e produto das placas de chumbo; os livros, como tantas vezes impensadamente se costuma dizer, deviam medir-se pelo volume. Quilos e quilos de chumbo. Assim, conseguir-se-ia medir o peso de cada palavra  e página. Que alívio para a crítica! Cada leitura reduzir-se-ia a uma espécie de «braille» de letras que na resistência da sua matéria encontraria o seu fluido ou equilíbrio. Para ele, as livrarias - garanto-vos que foi o exemplo que ele me deu -, não venderiam mais do que simulacros de livros. Para corresponder ao prometido, elas deveriam assemelhar-se mais a grandes armazéns, entrepostos ou mercearias, em que a literatura e a alma se vendessem a peso e esse peso não fosse coisa fácil («aura») mas de chumbo. A partir desse dia tive dificuldade em lhe explicar porque é que escrevia livros.  Cada vez que lhe mostrava um, ele ria-se. Ia até um dos quartos e trazia de lá um brinquedo. Dizia-me: «Troco-te por esta boneca de chumbo! Uma bailarina...» Que responder-lhe? Estará ao alcance de uma criança - mesmo a mais promissora, um idiota - compreender que talvez nós próprios não passemos de umas provas, tantas vezes revistas e retocadas, de uma única e sempre (re)fundida placa de chumbo?...


Fernando Guerreiro, A Sagrada Família

[ Vê-se logo ]

Opaco modo, catapulta
até. Não fossem elas,
as vozes. Às vezes, os outros nomes.
As asas que usas sem te servirem.
Servem-me aos poucos, as tardes calmas
durante a tua ausência: afluentes por defeito
e por fracasso: pão para malucos,
é só dizeres o que te vem à cabeça.
Digo eu - cancelar uma cor velha,
encostada à tua mão morta.
Aquela mão de verdade.
Ida do uso
ao abuso da força:
os falsos negativos:
falsas, as falsas
fogueiras. Cegas, desde
sem saberes como
nem porquê

Crianças mortas
por aí. Doentes,
de olhos na lua.
Quem as fez
não merecer 
isto ou aquilo

(...)


Rui Baião, Balabela

do citar

O desespero com que percorro a linguagem é a esperança de construir um idioma. Sem desespero não haverá provavelmente decisão. "Marcas do desespero" é uma expressão que li, não me lembro onde, para designar as aspas que rodeiam as palavras ou expressões citadas e através desse uso chamar a atenção para a impropriedade de tal palavra ou expressão. Porque muitas vezes as palavras não se ajustam, tornam-se obstáculos e ao mesmo tempo imprescindíveis. E então aqueles sinais que indicam que se está a citar e que ao mesmo tempo se pretende deslocar o sentido do que se cita são concerteza os sinais visíveis da fragmentação, da gaguez - que o discurso normal oculta (quando falamos no quotidiano nunca usamos aspas), que o filosófico exibe por vezes com extrema agudeza e que o literário exime sem precisar de sinais exteriores.


Silvina Rodrigues Lopes, Marcas do Desespero
De tão rarificado, o ar já
não tem capacidade para
reter as imagens (de si,
na linguagem) pelo que
construía cenários - agora,
a escrever em casa ou
atravessando o rio onde
o poema com os limos
depois era recolhido -
de modo a que as palavras
encontrassem um quadro
em que se reflectir,
adquirindo a espessura
dos frutos que rolam
para o pensamento
já muito depois de nos
dentes terem amarelecido.
A linguagem dos anjos
corrompe-se na paisagem -
crosta sem fundura
que nelas entreabre
as frinchas do precipício.
Não tinha sido ela
a ali colocá-lo, à espera
que a noite caísse
e os barcos emergissem
do fundo, encadeados,
com as visões do seu curso?
E contudo, era simples
ou feliz a linguagem
de que se servia:
dedada de deus,
os pássaros rareavam
na cabeça e o caçador
tinha de os tirar de dentro
para que o surpreendessem
com os seus destinos.
Tudo grânulos de sangue
que depois compunham
a forma ardente
de uma paisagem ferida.


Fernando Guerreiro, Ventos Borrascosos

princípio

No meio de frases destruídas,
de cortes de sentidos e de falsas
imagens do mundo organizadas
por agressão ou por delírio
não há-de ser um pacto novo,
um regresso às histórias e às
árduas gramáticas da preservação.
Depois dos efeitos da recusa
se dissermos não, a que diremos
não?
Que cânones são hoje dominantes
contra que tem de refazer-se
a triunfante inovação?
Voltar junto dos outros, voltar
ao coração, voltar à ordem
das mágoas por uma linguagem
limpa, um equilíbrio do que se diz
ao que se sente, um ímpeto
ao ritmo da língua e dizer
a catástrofe pela articulada
afirmação das palavras comuns,
o abismo pela sujeição às formas
directas do murmúrio, o terror
pela construída sintaxe sem compêndios.
Voltar ao real, a esse desencanto
que deixou de cantar, vê-lo
na figura sem espelho, na perspectiva
quase de ninguém, de um corpo
pronto a dizer até às manchas
a exacta superfície por que vai
onde se perde. Em perigo.


Joaquim Manuel Magalhães; Os dias, pequenos charcos
pedia da vida que se fizesse de dois poemas apenas,
o primeiro, extenso, do trabalho dos dias
de unir o astro imposto com o posto e descanso disso
o segundo, do espanto imaturo
do dia sem autor entre os dias somados por igual
os outros, todos, do retorno ao fogo
e a mão aberta de os devolver
pedia
o longo para viver nele
o curto para morrer dele.


Hugo Carvalheira Neves, Certa Parentela
(...)
Mas eu tenho os meus pés sempre perto das fontes
para o bem dos meus pés,
para o mal das fontes
(...)


Vicente Franz Cecim, algures no Ó Serdespanto
A MESA DE TRABALHO É ESCADARIA.
Todo o invisível do visível traz
por ela o movimento que designa.
E por onde se afastam animais
em direcção à tumidez mais íntima
que os retém. E punge. E os afaz
a rebanho de refulgência. A briga
submissa à dignidade pastoral
do báculo. Da conta. Da medida.
E do ritmo que os leva, especular,
para o ponto do júbilo e do enigma
que se acede na mesa. Pela qual
cada nome visível nos decifra
o invisível que o enxuga atrás.


Fernando Echevarría 
De dia podo as minhas árvores, à noite sonho.


Raul Brandão

uma folha referente à letra v

Ensinou em Dublin grego e hebraico.
Em Burgos,
pelo muito sol, pelo intenso cheiro das macieiras
foi levado a dizer
esse est percipi.
Em Hamilton, assente sobre os corais das Bermudas
ensinou o problema trinitário a partir do
vermelho espelhado da maçã.
O rosto continua voltado para a cidade.
Demos a cada um as horas da procura.

Perdido Berkeley. Levas os dias
«Mozart foi muito infeliz em Praga», calas-te e
mais nada.
A calma de um espaço para além do prometido,
os lábios ressequidos pelo vento,
pela aspereza dos vinte anos.

Reduziu a juventude à ambiguidade dos lábios.
À perfídia dos estreitos pulsos.
Aos cabelos crescidos acima de todo o entusiasmo.
À procura de uma qualquer verdade
música guerra fidelidade.

A errância é o seu estado, a ilusão.
O corpo largado para a pequena marcha do comboio
entregue ao movimento da memória
de nada serve uma árvore seguindo
uma casa de outra casa.

Vazio o quarto do hotel. Vazio o corpo demais.
Vinha do tempo dos quinze anos e pousava uma estranha
dor, a amizade do pátio do liceu.
Era antes da aula de latim e o latim referiu todo esse
tempo,
antes, depois, na aula de latim,
e o dia em que não havia aula de latim.

Foi antes, disseste «empresta-me o teu dicionário».
Respondeu-te «dá-mo no fim da aula».
E mais nada.
E, no fim, devolveste-o sem uma folha à pressa arrancada.
Uma folha referente à letra v, onde vinha virtus
que nunca traduziste por coragem
sempre por virtude.

Essa folha ainda está em casa dos teus, numa velha
gaveta de secretária. Lembras-te?
Por agora chega. Volta depressa para o teu lugar.


João Miguel Fernandes Jorge, À Beira do Mar de Junho

tradução

Trata-se pois de se ter sentado procurando o olhar
o olhar da noite que o olha. Longamente o fita -
Entretanto o vidro sobrepunha imagens das madeiras claras
dos focos eléctricos e do vaso imitado antigo, tosco e largo,
réplica exausta da porcelana mais leve
que o ar,
às luzes que campânulas negras deitam
sobre a água que escurece e obscura projecta o filme
no céu fechado e húmido, poalha de chuva, jardim aéreo
vertigem do mínimo: vestígio do fulgor
Seria este o motivo light: o interruptor:
O que irrompe e fecha é o que abre e acende.
Dizes: alguém carregou no interruptor; o tempo
interrompeu-se e a noite olha o corpo do homem
que não espera nem desespera; está.
Há quem chame a isto "uma solidão", uma palavra
contudo desnecessária.
Julgas nocturno saber de noite que isso
é o que te prende à repetição de ti em que te perdes;
quando o que quererias seria talvez dissolver-te
água do mundo
Habitando a fenda, a fracção ou a fractura do tempo
voltas ao princípio; um olhar não vale o outro;
nem simetria há. E de facto não se enfrentam.
Só se encontram lá
onde um terceiro olhar os olha.
Perguntas: quem é o mundo?
será que o mundo nos vê?
nos vê ali? Ou ninguém?
Pessanha traduziu Ou Mun para um não lugar
uma concha acústica onde vibra o mundo limiar:
a água do luar: pedra, uma espécie de primavera
ou um outono de tinta da china.
Ela então disse: estava ali um anjo -
o terceiro incluído - e não nos viu, ou -
mas eu sei que lhe tocaste
porque a tua mão atravessou a minha
e isso era a noite olhar-nos aos três.


Manuel Gusmão, Teatros do Tempo

sobre o futuro

«Os deuses nunca morrem», conclui Caeiro. Por isso, não serão os deuses que, na sua indiferença, alguma vez mudarão o mundo. Nem poderão ter a alegria de escolher o que não conhecem.


João Barrento, Como um Hiato na Respiração
Um fio de luz:
tesoura que baste
para tornar nítido
o que

sobre a cômoda,
sobre a mesa:
um lápis, uma pera,
um cálice,

que nossos olhos
podem anotar
sem complicação,
sem fula ou fastio.

Mesmo da morte a repentina
ternura, se vista de tal modo:
num vaso, haste, pétala
que cede.

Sobre a cômoda, sobre a mesa,
belezas que um nosso gesto
pode anexar ao peito
sem grande peso.

Ou, ainda, o peso nenhum
de quando nenhum atavio:
tábua
sem nada em cima.


Eucanaã Ferraz, Desassombro

o remador, de novo

O remador inclina o corpo
sobre o mar.
Os braços estendidos levam,
trazem os remos.
Afastam o barco da praia.

Se o vento trouxesse
o terror das sombras
o quebrar dos remos na água.


João Miguel Fernandes Jorge, Tronos e Dominações
Um corpo que se agarra a outro
e ora o acaricia ora o penetra

E nem o tecto lhes cai em cima
nem eles foram pelo chão abaixo

É a vantagem que há em
laborar no centro da terra


Rui Caeiro

vésperas da infância

1
entra no dia com o vagar dos desesperados:
o carro é o silêncio que transportas como a tua casa.
Quantas vezes, na estrada, te acolheu o mar entre giestas.
Ias com o nome de Deus como uma escória que se te colara à pele.
Vais com um deus que se escondeu na sua morte e apagou
o terceiro dia.
À tua frente, tens o mesmo caminho,
o futuro é um rosto num lugar inacessível
e a infância, a praça que nunca atravessaste,

2
bailemos devagar a nossa morte
em redor da árvore que explodiu
no traço de lápis que a criança
no seu vagar de sombra produziu,
bailemos em redor desta aveleira
do seu negro de fogo consumido
no estio da nossa dança bailemos
a primeira das três voltas do destino,
bailemos uma a uma a dança de nós três
enrolemos a meada em nossos pés quebremos
a linha que nos tece a queda bailemos
e contra o frio do fio apressaremos
a morte neste tempo de tecer

que palavra falta neste jogo?
que palavra é a falta neste jogo?


Rui Nunes, Ofício de Vésperas

ouvir os nomes passados alguns anos e algum treino e alguma rispidez

o teu  nome novo, comecei eu a tirá-lo com uma navalha da madeira grossa,
e nunca mais saía a única letra até dentro,
a primeira, e já toda a mão me sangrava
com o talho à volta dos dedos,
e a letra e o melhor do meu sangue e a seiva
metiam-se pela ferida como se ela mesma fosse
o meu trabalho apenas,
sangue que escorria pulso abaixo e me escoava:
a própria lavra da escrita -
¿oh quando arranjarei mão que alcance em sangue e força
o fundo final desse começo de ti,
nome terreno,
isso: coisa amada tanto quanto o alvoroço mortal deste fim de idade:
será que nenhum poder me devasta ainda?

Herberto Helder, A Morte Sem Mestre

as linhas das fronteiras

é quando os homens se dividem nas linhas das fronteiras e
erguem bandeiras indecisas
uma pátria é às vezes um lugar onde se adormece nas
noites da mudança da hora
às vezes é preciso desenhar nos mapas uma nacionalidade
um território onde seja possível dizer as
palavras antigas em voz alta sem que
cheguem do estrangeiro as
ambulâncias voláteis da respiração assistida
às vezes é preciso recomeçar
bater com as barras de néon no
discurso difuso dos orçamentos
acreditar que uma sombra repete no chão o
movimento vagaroso de uma nuvem
é quando nas fronteiras os homens se agasalham para não
desistirem com a boca tapada com fios de arame
e ainda assim avançam contra os caminhos que
parecem vir de longe em sentido contrário
se pudéssemos recomeçar um país
se pudéssemos reinventar uma linguagem
um rio seria o lugar do mundo onde mergulharíamos as mãos
e as levaríamos ao rosto
para que amanhecêssemos mais perto das
nascentes da água

José Carlos Barros, O Uso dos Venenos